Depois de muitos anos, muitos diplomas, muitos bens e muitas incursões no submundo, a vida continua sem sentido por: Ultimato Em qualquer tempo e em qualquer cultura, o ser humano quer se livrar da vida boba, isto é, da falta de sentido da vida. O autor de Eclesiastes tenta resolver o problema da “triste maneira de viver” (Ec 4.8, NTLH), da eterna e desagradável rotina da vida e da não-realização dos sonhos. Ele caminha por algumas vias na tentativa de ser bem-sucedido. Quem sabe o caminho da sabedoria daria certo? Então ele se dedica a investigar e a usar a sabedoria para explorar tudo o que existe. Ele pensa, estuda, pesquisa, viaja, observa e anota. Mal termina a graduação passa para a pós-graduação; mal termina a pós-graduação, passa para o doutorado; mal termina o doutorado, passa para o pós-doutorado. Depois de muitos anos e muitos diplomas, ele escreve: “Cheguei à conclusão de que a sabedoria é melhor do que a tolice, assim como a luz é melhor do que a escuridão. Os sábios podem ver para onde estão indo, mas os tolos andam na escuridão. Porém eu sei que o mesmo que acontece com os sábios acontece também com os tolos. Aí eu pensei assim: ‘O que acontece com os tolos vai acontecer comigo também. Então, o que é que eu ganhei sendo tão sábio?’ E respondi: ‘Não ganhei nada!’ Ninguém lembra para sempre dos sábios, como ninguém lembra dos tolos. No futuro todos nós seremos esquecidos. Todos morreremos, tanto os sábios como os tolos. Por isso, a vida começou a não valer nada para mim; ela só me havia trazido aborrecimentos. Tudo havia sido ilusão; eu apenas havia corrido atrás do vento”. (Ec 2.13-17, NTLH). Quem sabe o caminho do sucesso daria certo? Então ele arregaça as mangas e põe as mãos no arado. Não olha para trás nem uma vez. Não desanima, não desiste, não pára de perseguir o alvo proposto. Segue todas as instruções, sua em bicas, trabalha dia e noite. Paga todos os dízimos e faz doações enormes para receber o dobro ou mais que o dobro do que havia contribuído. Depois de muitos anos e de muitos bens, ele escreve: “Realizei grandes coisas. Construí casas para mim e fiz plantações de uvas. Plantei jardins e pomares, com todos os tipos de árvores frutíferas. Também construí açudes para regar as plantações. Comprei muitos escravos e além desses tive outros, nascidos na minha casa. Tive mais gado e mais ovelhas do que todas as pessoas que moraram em Jerusalém antes de mim. Também ajuntei para mim prata e ouro dos tesouros dos reis e das terras que governei. Homens e mulheres cantaram para me divertir, e tive todas as mulheres que um homem pode desejar. Sim! Fui grande. Fui mais rico do que todos os que viveram em Jerusalém antes de mim, e nunca me faltou sabedoria. Consegui tudo o que desejei. Não neguei a mim mesmo nenhum tipo de prazer. Eu me sentia feliz com o meu trabalho, e essa era a minha recompensa. Mas, quando pensei em todas as coisas que havia feito e no trabalho que tinha tido para conseguir fazê-las, compreendi que tudo aquilo era ilusão, não tinha nenhum proveito. Era como se eu estivesse correndo atrás do vento” (Ec 2.4-11, NTLH). Quem sabe o caminho da permissividade daria certo? Então ele se solta, sai da tutela do pai e da mãe, rompe com o passado, desiste dos padrões bíblicos de comportamento, encosta num canto os Dez Mandamentos da Lei de Deus, abre mão de alguns escrúpulos adquiridos na infância, torna-se dono de si mesmo e de seus desejos. Considera-se livre, inteiramente livre para fazer o que bem entende e satisfazer qualquer desejo, contanto que seja da carne e não do antigo Espírito. Depois de muitos anos e de muitas incursões no submundo, ele escreve: “Resolvi me divertir e gozar os prazeres da vida. Mas descobri que isso também é ilusão. Cheguei à conclusão de que o riso é tolice e de que o prazer não serve para nada. Procurei ainda descobrir qual a melhor maneira de viver e então resolvi me alegrar com vinho e me divertir. Pensei que talvez fosse essa a melhor coisa que uma pessoa pode fazer durante a sua curta vida aqui na terra” (Ec 2.1-3, NTLH). O sábio tenta outros caminhos. Todos vão para o mesmo lugar, todos o levam para a mesma sensação de desapontamento, todos o fazem correr sem parar atrás do vento!
. . .
Revista Ultimato, Ano XLI, n° 311 Mar/Abr 2008
ótimo texto